Marumbi, memórias e a primeira guiada do meu filho!

Marumbi, memórias e a primeira guiada do meu filho!

17 de agosto de 2025 1 Por Natan

Estou na montanha há três décadas!
Na verdade, nem lembro mais o que é viver sem estar na montanha… sem ser montanhista. Durante esses anos, muita coisa aconteceu: mudanças, reviravoltas inimagináveis, anos bons e ruins. Enfim… muita coisa passou.

Tive dois filhos. O meu mais velho, Gabriel, passou quase dois anos comigo no Marumbi. Ficou muitas vezes acampado, mesmo com chuva. Usei por muito tempo o alojamento do parque quando era voluntário e, depois, morei por um período na vila do Marumbi.
Lembro claramente dele correndo na estação de trem, pedindo bala para desconhecidos no camping, tentando pegar passarinhos que vinham comer no chão e sempre explorando a mata nos arredores das casas.

Com o retorno para Curitiba e a rotina urbana, o Gabriel já não teve a mesma convivência com a natureza, a montanha e, principalmente, com o Marumbi. Muitos anos se passaram, a vida tomou rumos inesperados para todos nós, mas, ainda assim, o que idealizei há muito tempo hoje vem se alinhando naturalmente — e até melhor do que a minha imaginação ousou fantasiar.

Estar na montanha com meus filhos era um grande desejo que eu tinha. Cheguei a pensar que não aconteceria, que a vida urbana, com seu conforto e segurança, tinha tomado conta dos meus meninos. Mas fui surpreendido pela vontade e pela insistência do Gabriel em escalar comigo.
Começamos com uma ou outra escalada no Anhangava, depois uma visita ao Setor 3 de São Luís para conhecer outro tipo de rocha e estilo. Ele entrou na primeira enfiada da Enferrujados, no Parque do Lineu, para entender o que é altura — até chegar a este último fim de semana.

Escalar no Marumbi é para quem está realmente com vontade, com tesão de escalar. Lá tudo é difícil: nada colabora para você poder estar nas paredes dessa montanha linda. O tempo é quase sempre ruim, a logística para chegar é complicada, a estadia é roots, carregar equipamento até a base é puxado e, geralmente, você já chega cansado. E nem vou entrar no mérito das vias, que mexem com o psicológico.

Gabriel queria escalar no Marumbi, mas só estaria liberado no sábado. Sem carro justamente nesse fim de semana, deu o seu jeito. Avisei que no domingo esperaria até as 8h; depois disso, subiria independente de quem estivesse comigo. Conhecendo o pai que tem, ele agilizou como pôde, mesmo com a chuva que caía desde sexta-feira. No sábado, no fim do dia, já estava batendo na casa do Vitamina (onde ficamos), junto com o Raphael, associado do clube que participaria da atividade.

Durante a noite choveu — e não foi pouco. Pela manhã, acho que o Gabriel era a pessoa mais animada para subir. O tempo lá fora não ajudava: tudo branco, nada da montanha aparecia. Seguimos na persistência, acreditando que daria para fazer alguma coisa. Foram duas horas de trilha bem molhada até o Parque do Lineu, com a vegetação ainda pingando da chuva da noite anterior.

Na base da via Maria Buana, Gabriel pediu para guiar — seria a primeira vez dele na ponta da corda.
Já que tinha se esforçado tanto para estar ali, deixei que se encordasse e passei as últimas orientações. Entrou na parede sem saber se estaria tudo seco. Pouco antes de finalizar a primeira enfiada, a neblina densa se abriu em um mar de nuvens, revelando céu azul e sol forte. Duas quedas no crux antes de chegar à P1 foram suficientes para a adrenalina subir e ele pedir um tempo para se acalmar… normal para quem escala no Marumbi.

Da parada dupla, deu segue para o Raphael, que estava estreando no Marumbi — o nervosismo era visível.
Na minha vez, aproveitei o fato de estar com a corda de cima, mas, principalmente, saboreei o momento de dividir a cordada com meu filho.
Na P1, o Raphael não se sentiu seguro para continuar e decidiu rapelar dali mesmo.

Orientei o Gabriel sobre a segunda enfiada, especialmente sobre a atenção redobrada no crux logo na saída, onde havia risco de eu cair sobre ele.
Escalei meio no perrengue: a parede sem muito grip, as fendas úmidas… mas deu tudo certo. Cheguei à P2 e finalizamos a via.
Gabriel chegou cansado, mas com um sorriso largo e animado pela conquista.

Foi um dia para ficar na memória — a concretização de algo que idealizei há muitos anos.

Gabri, nunca te forcei a estar na montanha, porque isso precisa ser natural e genuíno. O meu desejo de que você siga nesse caminho vem do simples fato de eu saber que vale muito a pena. Tenho certeza de que mudará sua percepção sobre tudo: desde valorizar e ser grato por um banheiro com vaso, uma cama aquecida, um copo d’água, o retorno para casa e a família… até sua relação com Deus.
Te amo, filho.

 

Gabriel pequeno na estação do Marumbi.

Gabriel subindo o Olimpo com 3 anos.

Gabriel.

Eu, Gabriel e Rafael no Morro do Canal.

Natan, Gabriel e Rafael no cume do Abrolhos.

Cume do Abrolhos.

Comemorando meus 25 anos de montanha no cume do Abrolhos. Natan, Rafael, Jorge (meu pai) e Gabriel.

Marumbi, Gabri e Rafa.

Escaladinha no Anhangava.

Na caminhada para conhecer o Setor 3.

Meu neto Oliver, filho do Gabriel, começando logo cedo a manusear cordelete.

Gabriel praticando em casa.

Os carecas no Marumbi.

Final da via no Anhangava.

Aprendendo a escalar artificial.

Na parada da Enferrujados.

Primeira guiada do Gabriel no Marumbi.
Via Maria Buana.

Pai e filho.