Chaminé dos Coroas – Uma viagem no tempo pela história da escalada no Baú

Chaminé dos Coroas – Uma viagem no tempo pela história da escalada no Baú

6 de junho de 2026 0 Por Natan

A última vez que estive em São Bento do Sapucaí para escalar foi em abril. Na verdade, a escalada estava em segundo plano, pois participaria do Seminário Paulista de Escalada e também da entrega do Mosquetão de Ouro 2026, que aconteceria durante a Festa da Montanha, organizada pelo Eliseu Frechou.

Durante esses eventos, conversando com a Helena Coelho, montanhista com muita experiência e um nome consagrado no montanhismo paulista, foi ela quem me falou e, de certa forma, me incentivou a conhecer a Chaminé dos Coroas.

A Chaminé dos Coroas foi a primeira via técnica conquistada na Pedra do Baú, na década de 60. Um feito extremamente importante para a época e que marcou o início de uma nova fase da escalada na montanha.

No começo da escalada no Brasil, chaminés e fendas eram as linhas mais utilizadas. Os equipamentos disponíveis eram precários e muito diferentes dos atuais. Naquela época, a corda era muito mais utilizada para a descida do que como equipamento de proteção. Amarrar uma corda estática na cintura dificilmente salvaria alguém de uma queda.

Com o passar dos anos, esse estilo acabou sendo deixado um pouco de lado. Hoje existem escaladores que fazem graus altos e praticamente nunca entram em uma chaminé ou fenda de meio corpo.

A técnica para progredir é diferente, a “ralação” é garantida e um dos principais motivos do abandono desse estilo é a exposição.

As chaminés e fendas antigas foram conquistadas há décadas. As proteções eram batidas na base da marretada. Imagine ficar uma hora em isometria para instalar uma única proteção.

Essas conquistas não eram para qualquer um.

O resultado são vias expostas, algumas vezes com chaminés de mais de 30 metros protegidas por apenas uma proteção duvidosa. Hoje, muitas dessas linhas deixaram de ser frequentadas pelo risco, pela dificuldade de progressão e, muitas vezes, por acessos tão trabalhosos quanto a própria escalada.

Como diz um grande amigo meu:

“Esse Natan tem um gosto meio estragado para gostar de chaminé!”

Desde que a Helena me contou sobre essa linha, além de já ter observado algumas vezes do cume da Ana Chata, a Chaminé dos Coroas virou uma ótima opção de escalada que eu queria fazer nessa visita ao Baú.

Estávamos um pouco cansados da escalada do dia anterior, a Transbaú. Ninguém se animou a entrar conosco na chaminé, então o pessoal do Nas Nuvens Montanhismo e do Clube Alpino Paulista seguiu para escalar na Pedra da Ana Chata.

Eu e a Luiza e todo pessoal, saímos juntos do refúgio do CAP, próximo ao Bauzinho, pela trilha que contorna as montanhas por trás.

Depois de contornar praticamente toda a Pedra do Baú, antes da trilha começar a descer, o pessoal seguiu em direção à Ana Chata e nós ficamos por ali. Encontramos um rastro de trilha que imaginamos que poderia levar até a base da chaminé.

Para nossa sorte, em poucos minutos chegamos a uma cerca de arame farpado. Atravessamos e logo encontramos uma trilha mais definida seguindo em direção à grande fissura na “bunda” do Baú.

Resumindo: saindo da trilha principal, levamos menos de 15 minutos até a base da Chaminé dos Coroas.

Eu tinha certeza de que o verdadeiro crux seria encontrar a base da escalada, engano meu!

A primeira enfiada é praticamente um trepa-mato. Seguindo beirando a parede, basta continuar subindo pelo rastro fechado, uns 40 metros talvez, sem muito para onde errar.

Cheguei em um conglomerado de pedras com uma árvore boa para montar uma parada improvisada e dei segurança para a Luiza subir.

Sem encontrar nenhuma chapa fixa, continuei agora por um trecho de mata ao lado de um vale bem vertical. Logo acima encontrei a parede com uma proteção fixa nova.

Esse pequeno trecho não devia ter nem 15 metros, mas ali tive certeza que estava na linha da chaminé. À frente apareciam algumas proteções entrando em direção ao buraco da parede.

Acredito que ali começava a segunda enfiada.

Mesmo com o dia ensolarado, continuávamos na sombra, com bastante frio. Além disso, alguns trechos estavam molhados e escorregadios.

Esse provavelmente era o crux da via. Algumas chapas novas, instaladas nos últimos anos, mostram a linha correta.

Quando cheguei na segunda costura, a parede ficou bem vertical jogando o corpo para fora. A próxima proteção não estava perto, e uma queda poderia significar parar no platô logo abaixo.

Na minha frente havia uma fenda boa para uma peça móvel, provavelmente um Camalot 3. Além de proteger, seria o lugar ideal para entrar com a mão fechada, como uma cunha, e ganhar altura para alcançar a próxima chapa.

Se eu não fosse tão esquecido e tivesse levado algumas peças móveis, provavelmente não teria passado medo arriscando dar chão.

O movimento saiu, ganhei altura suficiente para entrar no buraco e só escutei a Luiza lá embaixo:

“Booooa, meu amor!” – com um tom de alegria e alivio.

O buraco leva para dentro de um platô amplo e confortável. Ali sim encontramos uma chaminé para escalar.

Procurei bastante, mas não encontrei nenhuma proteção fixa para montar a parada. Tive que improvisar com as cordas, laçando uma grande pedra para fazer uma equalização e dar segurança para a Luiza subir.

Ali dentro era possível ver os vestígios de uma proteção antiga que foi retirada. Assim como no lance mais difícil, também era possível perceber onde existiam proteções da conquista original, mas que não foram repetidas na regrampeação.

A chaminé fica melhor mais para o fundo da parede. Conforme você ganha altura, é obrigado a sair cada vez mais para fora dela até abandonar completamente a chaminé e seguir escalando em livre.

Quando a parede fica mais inclinada e você não encontrar mais nenhuma chapeleta, olhe para a esquerda, em diagonal para cima. A próxima proteção está lá.

É longe mesmo.

É preciso fazer um grande movimento para a esquerda para proteger e depois voltar em direção ao mato. Alguns metros acima, a vegetação abre e aparece uma espécie de pequeno bosque, um lugar simpático para montar a segurança e chamar o parceiro.

Ali termina a Chaminé dos Coroas.

Daí para cima é só seguir pelos degraus fixos na rocha até o cume da Pedra do Baú.

Uma escalada divertida, histórica e com um visual fantástico.

O perrengue faz parte da escalada tradicional e do montanhismo antigo.

Trouxemos um pouco de como foi nossa experiência nessa linha, de uma forma mais técnica, para ajudar quem pretende programar essa escalada.

Não deixe de conhecer essa e outras vias que ajudaram a construir a história do montanhismo brasileiro.

Boas escaladas!

No refúgio do CAP, integrantes do Nas Nuvens Montanhismo e do Clube Alpino Paulista! Agradecemos ao Daniel Zacharias pela hospitalidade e organização da atividade.

Natan e Luiza na trilha principal prontos para caminhar.

Esse é o ponto de saída da trilha principal subindo por um pequeno rastro. Esse rastro segue em curva de nível para a esquerda.

Chegando na base da chaminé.

Parada improvisada na primeira enfiada.

P1 – Onde achamos a primeira chapa.

Crux da via. Na fenda a direita da pedra entalada é um ótimo local para proteção em móvel.

Após o crux e o buraco que precisa passar, a P2 fica nessa “caverna” no inicio da chaminé.

Trecho de chaminé.

Pedra da Ana Chata vista da Chaminé dos Coroas.

Após a chaminé, esse ponto que a linha da via faz um “balão” para esquerda e mais acima retornando para o mato.

Na P3 da via, um pequeno bosque com boas árvores para montara uma ancoragem.

Saída pela escadaria até o cume da Pedra do Baú. (Essa escadaria tem trechos coberto pelo mato e segue um tanto para cima até chegar no cume, não é um trecho curto.)

Sr. e Sra. Loureiro Lima no final da Chaminé dos Coroas.

Cume da Pedra do Baú

Visto da Pedra da Ana Chata, essa é a linha da Chaminé dos Coroas na Pedra do Baú.

 

            Confira o vídeo completo da            Chaminé dos Coroas