Acotango: uma pendência de 2017 finalmente encerrada
No início do ano recebi um convite inesperado que me pegou de surpresa. Durante um jantar com um grande amigo meu, o Lucas, meu compadre soltou a pergunta:
“Bora voltar pra Bolívia e finalizar aquela montanha que não finalizamos em 2017?”
Eu realmente não esperava um convite desses. E uma expedição dessa proporção nem estava programada no meu orçamento pra esse ano.
Lucas, já me conhecendo, completou:
“Sei que vc não programou uma expedição para esse ano, mas não se preocupa com o financeiro. Eu já vou de qualquer jeito e gostaria muito que vc voltasse comigo nessa expedição. Só programa os dias que ficam bons pra vc.”
Lucas ainda usou mais alguns bons argumentos, e no fim só faltava a patroa dar o alvará final.
Esse convite tem um motivo especial. Nos dias em que fiquei pensando na resposta, veio um filme na cabeça de tudo que passamos no Acotango em 2017.
ACOTANGO 2017
O Nas Nuvens Montanhismo estava empolgado com os projetos de montanha da época, e um deles era a expedição para a Bolívia.
Como toda expedição, são meses de preparação e planejamento, e a nossa não foi diferente.
Fechamos em quatro integrantes: Natan, Lucas, Leandro “Bolívia” e Alisson, todos integrantes do NNM para essa expedição. A divisão mais refinada dos equipamentos foi feita em duplas, e a minha era com o Lucas.
As primeiras horas em La Paz são sempre agonizantes. Os primeiros sintomas da altitude já começam no hotel, e é preciso administrar bem a aclimatação.
Tirando o Lucas, eu, Leandro e Alisson já tínhamos experiência em alta montanha. Assim, cada um já tinha uma boa noção de como o próprio corpo reagia à altitude.
A aclimatação básica para fazer as montanhas da Bolívia incluía caminhadas por La Paz, subida até El Alto, deslocamentos de teleférico, além da subida até o cume do Chacaltaya, com 5.421 metros. Muita água, chá de coca e uma boa alimentação, sempre procurando comer em lugares seguros. Ninguém queria arriscar uma intoxicação alimentar — algo relativamente comum durante uma viagem pela Bolívia.
Durante todo esse processo, todos os integrantes monitoravam a oxigenação e os batimentos cardíacos para acompanhar a aclimatação. Estávamos todos bem, alimentados, dispostos e com uma boa melhora na oxigenação.
Havia, porém, um fato que nos deixava na dúvida: os batimentos cardíacos do Lucas.
Ele estava muito bem, com uma oxigenação na casa dos 90%, mas os batimentos ficavam próximos de 100, independentemente de estar descansando ou não. Lucas afirmou que seus batimentos sempre foram um pouco altos mesmo, mas que estava tudo bem e que estava se sentindo ótimo.
Aclimatação feita. Partimos para a região do Sajama.
A estratégia era simples: subir o Acotango, com 6.052 metros de altitude, descansar um dia e fazer a tentativa do Sajama. E foi seguindo esse planejamento que partimos.
Subida do Acotango — 12 de julho de 2017
Às 2 horas da manhã, estávamos dentro da caminhonete, prontos para iniciar a caminhada.
Levamos um pouco mais de uma hora e meia até chegar ao ponto onde o transporte deixaria os montanhistas para iniciar a subida.
Não demorou muito depois da partida para precisarmos colocar os crampons nas botas e seguir pela neve.
Cada dupla adotou um ritmo, e seguimos na escuridão gelada rumo ao cume.
Um pouco antes de amanhecer, a dupla Alisson e Bolívia passou por nós, naquele momento em que fazíamos uma pausa para respirar um pouco.
Perguntei ao Lucas se estava tudo bem, pois senti que seu ritmo tinha mudado.
“Tá tranquilo, pia. Só estou sentindo um pouco de falta de ar, mas vamos na maciota que estou bem!”, respondeu Lucas.
Já era dia quando vi a outra dupla muito à frente de nós.
Conversei com o Lucas, e ele realmente não estava bem. Concordou comigo que seria melhor voltar.
Deixei-o sentado na única “ilha” de terra cercada de neve enquanto eu tentaria me comunicar com a piazada à frente para avisar que estávamos descendo dali.
Mesmo acelerando, eu estava longe da dupla. Fiz alguns gestos indicando que estávamos descendo, mas sem a certeza de que estavam entendendo.
Havíamos combinado com o transporte que ele nos esperaria no final do vale que vinha da montanha, e não no início da crista onde havia nos deixado.
Então, enquanto eu baixava para chegar até o Lucas, analisei a grande encosta de neve que levava até o fundo do vale e, posteriormente, até a estrada no final dele.
Olhando de longe, não parecia um “bicho de sete cabeças”. Não era difícil, mas também não era um passeio no parque.
Chegando próximo da “ilha”, vi o Lucas deitado em posição fetal. Estranhando a postura dele de longe, gritei:
“Bora, pia! Temos uma puta encosta de gelo para descer!”
Nenhuma resposta e nenhum movimento.
“Bora, Lucas! Vamos que a descida talvez seja pesada!”
Sem nenhuma reação da parte dele, ajoelhei-me ao seu lado e o sacudi.
“Bora, pia! Você tá bem?”
Ele tentava ficar sentado e só conseguiu com a minha ajuda.
Sem resposta até aquele momento, levantei os óculos escuros dele. Foi nesse momento que percebi que a situação era séria.
Seu olhar não fixava em nada. Parecia estar em “transe”. Não me respondia e mal conseguia ficar parado.
Do nada, ficou em pé e falou:
“Tô bem, pia. Para onde vamos?”
Segurei-o e orientei:
“Lucas, precisamos descer essa encosta de neve, mas preciso que você me ajude. Se pendure na minha mochila e vamos andando devagar. Cuide para não tropeçar no crampons, pois não podemos cair aqui.”
Ele, com uma voz fraca e parecendo alcoolizado, balançou a cabeça confirmando a informação e logo se pendurou na minha mochila.
Lucas é um cara alto e pesado. Logo que se apoiou, tive a certeza de que seria uma descida difícil e cansativa.
De passo em passo, iniciamos a descida pela encosta.
A todo momento eu lembrava o Lucas da importância de não tropeçar com os crampons de neve.
“Pia, ande com os pés um pouco abertos para não se enroscar nos crampons. Tá vendo essa encosta? Nós vamos nos foder se a gente cair!”
Eu tinha perdido completamente a noção do tempo. Eu só pensava em cada passo firme e certo que tinha que dar.
Estávamos no meio daquela descida e eu suava frio. O Lucas não respondia aos comentários que eu fazia para tentar distrair daquela situação de merda.
Em um quase tropeço do Lucas, senti a mochila pesar nas minhas costas e travei todo o corpo para equilibrar nós dois. Nesse momento, me virei para orientá-lo novamente, mas me deu até um arrepio quando vi ele completamente apoiado na mochila e babando.
Sozinho com um amigo moribundo nas costas, e aquela encosta não acabava.
Eu sentia minhas pernas queimarem pelo esforço físico, mas tinha que chegar ao fundo do vale antes de poder descansar um pouco.
Realmente perdi a noção do tempo, mas aquela descida parecia não acabar nunca.
À medida que o fundo do vale se aproximava, eu ia relatando para o Lucas:
“Pia, só mais um pouco. Já estamos quase chegando no vale para poder descansar um pouco. Aguente firme aí!”
Eu nem acreditei quando pude colocar o Lucas sentado no chão.
Estava morrendo de sede, mas zero fome. Dei água para o Lucas também e avaliei os próximos passos enquanto descansava.
O fundo do vale tinha um pequeno riozinho congelado. A descida não teria nenhum problema de orientação, mas tínhamos que cruzar o rio congelado algumas vezes, sempre buscando o rastro do caminho, que mudava de encosta dependendo da inclinação do terreno.
Eu conversava com o Lucas como se ele estivesse me entendendo em tudo que eu falava.
“Vamos ter que cruzar esse riozinho com gelo azul algumas vezes. Se esperte, que essa porra de gelo azul escorrega pra caralho. Se liga aí, pia!”
Levantei meu amigo, e ele logo se pendurou na mochila, já sabendo o que tinha que fazer. Assim, voltamos a caminhar.
O terreno agora já não era tão íngreme, e eu podia parar mais vezes para descansar.
Um tropeção naquele momento talvez já não custasse mais nossas vidas; no máximo, alguns ralados.
Naquele passo de tartaruga, outra coisa começou a me preocupar.
Estávamos dentro de um vale, e o sol estava querendo se esconder por detrás das montanhas. Não era tarde, mas estávamos dentro de um vale.
Em montanhas nevadas, quando o sol desaparece e você fica na sombra, a temperatura cai absurdamente. No sol já estava frio; na sombra, piora muito. Se tiver que ficar parado, sem se mexer, é questão de tempo para uma hipotermia se instalar.
O medo começou a tomar conta novamente.
Eu estava tentando analisar a melhor estratégia para a situação em que me encontrava.
Lucas parecia estar piorando. Não falava absolutamente nada, mal estava conseguindo andar, mesmo pendurado nas minhas costas.
Eu estava muito, mas muito cansado e não tinha ideia da distância que estava da estrada.
Eu não estava conseguindo mais carregá-lo. Deixar o Lucas deitado em algum lugar e ir buscar ajuda também era muito arriscado, pois não sabia quanto tempo isso levaria.
Em pouco tempo estaríamos na sombra e, debilitado como ele estava, exposto àquele frio, não sei se aguentaria.
Eu ainda tinha uma esperança.
Eu sabia que a rota de saída do cume do Acotango passava por aquele vale. Só não sabia em que altura ou em que momento aconteceria esse encontro. Isso significava que eu poderia encontrar o Alisson e o Bolívia na descida.
O que eu podia fazer de concreto, dentro das minhas possibilidades naquele momento, era continuar descendo com o Lucas, mesmo cansado e quase não conseguindo mais carregar meu amigo.
Qualquer metro para baixo era um metro mais perto de sair da merda.
E foi isso que fiz.
O sol, a qualquer momento, iria se esconder, e o vento aumentou para ajudar.
Agora, com o vento, para descansar eu precisava sempre colocar o Lucas atrás de alguma pedra, evitando que o corpo dele esfriasse demais com o vento.
Um pouco mais longe, avistei uma pedra grande, ideal para proteger o Lucas enquanto eu descansava.
Em passos pequenos, conseguimos chegar onde eu queria.
Coloquei-o deitado, o mais abrigado possível do vento, e fui descansar um pouco.
Sentado em uma pedra, me recuperando, escutei:
“Olha o Negão ali!”
Olhei em direção à montanha e não acreditei que estava vendo a piazada descendo a montanha, alguns metros de mim.
Alisson, com um sorriso no rosto, já gritou de longe:
“Fala, pia! Cadê o Lucas? Tudo certinho?”
Esperei eles chegarem até onde eu estava para conversar.
“Piazada, o Lucas está mal. Preciso que me ajudem a levar ele pra baixo.”
Bolívia ainda não tinha visto a situação e brincou:
“Imagina que o Lucas não consegue descer sozinho. Bora lá!”
Ao se aproximar da pedra onde eu tinha escondido o Lucas, só dava para ver um par de botas verde-limão esticado no chão, por detrás da pedra.
Quando chegamos e vimos ele deitado, parecia, no primeiro momento, até que ele estava morto.
Logo a expressão dos dois mudou ao perceber a seriedade da situação.
Cada um pegou o Lucas de um lado do braço, e começamos a descer.
Eu fui logo atrás, vendo a piazada descer com o Lucas meio que de arrasto.
Eu estava exausto!
Aliviado por ter encontrado a piazada e por estarmos saindo daquela situação, que espero nunca mais passar nem perto.
Chegamos ao carro e voltamos para a Vila Sajama.
Tivemos vários desdobramentos, mas o resultado final foi eu e o Lucas, agora consciente, voltarmos para La Paz e procurarmos um hospital com urgência.
A orientação médica foi direta: retirar o Lucas da altitude urgentemente.
Segundo a avaliação médica, ele havia sofrido uma arritmia, e o corpo teria redistribuído o oxigênio disponível para preservar os órgãos vitais. Essa foi a explicação para ele ter perdido a consciência durante a descida.
Saímos de La Paz de ônibus até Santa Cruz. Não havia mais voos disponíveis para os próximos dias, então o mais rápido foi seguir por terra.
Esse foi o nosso Acotango de 2017.
Uma montanha que, naquele momento, deixou de ser uma conquista e passou a representar uma experiência que nenhum de nós gostaria de repetir.
Anos depois, eu ainda carregava essa história comigo.
E talvez por isso, quando surgiu a oportunidade de voltar ao Acotango, a montanha já não era apenas uma montanha. Era uma pendência.

Visivelmente mais jovens, seguimos para La Paz no ano de 2017

Cume de Chacaltaya no processo de aclimatação.

Aclimatação seguindo bem.

Rumo a Vila Sajama

Sajama ao fundo e a pequena vila que serve de base para as montanhas da região.

Praticamente a única foto que tirei na montanha naquele dia.

Foto: Na descida do cume 2026.
Marcado pela seta, essa foi a encosta que descemos em 2017, na época tudo estava coberto pelo gelo.
ACOTANGO 2026
Combinei com o Lucas que eu teria, no máximo, 10 dias para estar na Bolívia.
Ele quis garantir a sua aclimatação e foi alguns dias antes, para ter mais tempo de o corpo entender a falta de oxigênio e estar preparado o suficiente para a subida da montanha.
Eu sabia que meu tempo entre aclimatar e subir o Acotango seria muito curto, então fiz a lição de casa que considero fundamental: treinar pesado.
Meu treinamento consiste, durante a semana, em fazer CrossFit quatro vezes, uma ou duas corridas, além do treino específico, que é subir montanha. Apesar disso, este ano a chuva atrapalhou muito as caminhadas na montanha.
Quarta-feira — dia 22
Meu voo saiu muito cedo de Curitiba para Guarulhos. Era para sair com a companhia BOA para a Bolívia às 14 horas, mas, como já sabia, essa empresa é muito desorganizada. Acabei saindo de São Paulo somente às 19 horas e chegando em La Paz quase à meia-noite.
Quinta-feira — dia 23
Primeiro dia na altitude. La Paz já está a 3.700 metros de altitude. A gente já sente a falta de ar, fica mais cansado e indisposto, mas eu precisava caminhar pela cidade. Ir até El Alto, onde fica o aeroporto, a 4.100 metros de altitude, é uma ótima opção para ajudar na aclimatação.
Como tínhamos tempo para ficar batendo perna, aproveitamos para encomendar alguns equipamentos que precisávamos alugar: botas, crampons e mais algumas coisinhas.

Passeio com o teleférico até El Alto chegando a 4100 metros

El Alto tem um dos melhores visuais de La Paz, com o Illimani ao fundo.
Sexta-feira — dia 24
Saímos de manhã para fazer o cume do Chacaltaya, com 5.421 metros. Esse sistema de aclimatação é o básico para quem vai subir as montanhas da Bolívia. Pode ser que você não vá para o Chacaltaya logo no segundo dia, pois é pesado e meio forçado, mas, se você já conhece o seu corpo, pode ser uma boa opção.
Leva umas duas horas de carro até a estação de esqui, que está desativada há muito tempo. Depois, são aproximadamente 30 a 40 minutos para chegar ao cume.
Voltamos logo após o almoço e precisei de um tempo para descansar. Eu sabia que essa subida me deixaria bem baleado, pois era pouco tempo na altitude para passar da cota dos 5 mil metros.
Sem muito tempo a perder, no meio da tarde fomos buscar os equipamentos alugados, fazer mais algumas compras no mercado para os mantimentos que precisaríamos enquanto estivéssemos na Vila Sajama e deixar tudo pronto para o dia seguinte, quando viajaríamos até a região das montanhas.

Atravessando El Alto rumo ao Chacaltaya

Chacaltaya ao fundo.

No caminho , parada para fotos.
Huyana Potosi ao fundo.

Estação de esqui desativada na base da montanha.

Subida Chacaltaya
Foto: Erickc Mota

Huayna Potosi visto do cume do Chataltaya

Cume Chataltaya

Esperando a galera voltar.
Sábado — dia 25
Aqui vou descrever como fizemos para chegar à Vila Sajama por conta própria. Hoje, um transporte de ida e volta até a vila pode custar entre 2.500 e 3.000 bolivianos para duas pessoas. Esses foram os valores que conseguimos atualizados para levar eu e o Lucas.
Por conta própria, nós dois gastamos 700 bolivianos com ida e volta.
Saída do Hotel Sagarnaga até a rodoviária: 25 Bs.
Da rodoviária, pegamos um ônibus para Patacamaya, com custo de 120 Bs, e levamos umas duas horas para chegar.
Em Patacamaya, o ônibus te larga na estrada. É preciso achar um táxi, por cerca de 15 Bs, para te levar até o restaurante que servia como ponto de referência para onde sai a van para a Vila Sajama, dentro do Parque Nacional. Restaurante Capitol, o restaurante citado como referência já não existe mais, mas todos sabem o local.
Patacamaya é uma cidade pequena e bem caótica. Encontramos a van que faz o trecho até a vila. Cobrou 80 Bs por pessoa e ainda deu uma estorquidinha, cobrando mais 20 reais da gente porque tínhamos muita carga.
Leva, em média, três horas de Patacamaya até a Vila Sajama.
Na entrada do parque, os visitantes precisam fazer um cadastro e assinar um termo informando o que vão fazer e qual é sua experiência em alta montanha. Além disso, há uma taxa de 100 Bs pela entrada no parque.
Nossa hospedagem foi no mesmo local de 2017, o Hotel Sajama. O tempo passou e o hotel só piorou, fora o atendimento, que também piorou muito.
Minha opinião pessoal sobre a hospedagem no Hotel Sajama: essa é a quarta vez que estou na região, e esse hotel era praticamente a única opção. Tem um outro, mais recente, chamado Hotel Oais, que pareceu ter uma estrutura muito melhor.
Não sou chato nem exigente com atendimento e serviços, mas acho muito foda quando tentam fazer a gente de otário. Elizeu, no Hotel Sajama, tentou por várias vezes empurrar serviços que não queríamos. Cobrou um absurdo para nos levar até a base do Acotango.
Com mais tempo, fizemos uma pesquisa de valores para um passeio nas águas termais da região, e nosso anfitrião do Hotel Sajama estava querendo cobrar três vezes mais do que outros transportes.
Para finalizar, tentou passar a perna na cara de pau em quase 500 Bs da nossa conta.
Resumindo: sugiro que evite essa hospedagem. Ao lado existe uma opção que nos pareceu bem melhor.

Na beira da estrada em Patacamaya onde o ônibus nos deixou

Patacamaya

Nossa van até a vila Sajama

Entrada do parque

Parque Nacional Sajama

Acotango ao fundo.

Vila Sajama

Lhamas

Lucas no preparo da nossa janta.

Arroz, lentilha, linguiça defumada e seleta de legumes. Boa parte da nossa alimentação trouxemos do Brasil.
Domingo — dia 26
Na madrugada de domingo, à 1h30, estávamos no carro em direção à base do Acotango.
Um pouco mais de uma hora de carro e chegamos ao início da caminhada.
Era praticamente 3 horas da manhã quando iniciamos a caminhada por dentro do vale. Eu estava pensando que o caminho seria como da outra vez, por uma crista, mas o motorista confirmou que ali era o caminho correto. Então concluí que estávamos fazendo o caminho inverso da descida de 2017.
Seguimos sem crampons até realmente chegar a necessidade de colocá-los.
Em um passo tranquilo, mas constante, seguimos dentro do vale, acompanhando os totens do caminho, que jogavam de uma margem a outra do pequeno riozinho congelado.
Com um pouco mais de uma hora de caminhada, o terreno ficou bem íngreme. Estava uma noite limpa, mas quase sem claridade. Dava para perceber que havia uma grande encosta pela frente, mas sem ter a real noção do tamanho da encrenca que estávamos subindo.
Andando em ritmo constante por aquele terreno quase arenoso, fomos ganhando altitude, fazendo poucas paradas para hidratar.
Quase amanhecendo, já conseguimos ver o final daquela encosta interminável. Mas essa também é a hora mais fria do ataque ao cume, quando o sol está para sair no horizonte.
Seguimos por uma crista até chegar à neve. Ali precisávamos colocar os crampons para continuar, e no relógio batia 7h30 da manhã.
Meu estômago, nessa hora, começou a querer incomodar. Uma pressão forte, com muita vontade de vomitar. Até pensei em colocar logo para fora o que nem tinha, mas fiquei preocupado de azedar ainda mais.
O cume parecia tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Algumas corcovas até realmente chegar ao cume eram nosso desafio mental.
De passo em passo, fomos ganhando altura.
À medida que subia, comecei a ficar cabreiro com o gelo azul, que aparecia cada vez com mais frequência. Eu olhava para os lados para saber onde iria parar caso escorregasse e cheguei à conclusão de que um tropeço ou uma escorregada não era uma opção. Não havia margem para erro.
Sempre escutei de alguns que o Acotango é um 6 mil fácil tecnicamente. Até não deixa de ser, mas leve um piolet e talvez seja legal estar encordado.
A última rampa é a mais íngreme, mas é curta.
Às 9 horas da manhã de domingo, dia 26 de julho de 2026, eu, Natan, e meu amigo e irmão Lucas Elis Reis estávamos no cume do Acotango, com 6.052 metros.
Cansados, mas muito felizes pela conquista pessoal, passamos um pouco mais de 30 minutos no cume, entre tirar fotos e descansar um pouco.
O feito, para ser completo, precisa voltar para casa. Então concentramos no que estávamos fazendo, pois agora, na descida, não podíamos dar nenhum vacilo. Estávamos sem piolet e, em uma eventual queda, os bastões de caminhada talvez não resolvessem nada.
Apreensivos, descemos toda a parte de neve em uma hora, sem nenhum problema.
Estávamos com nossas botas de caminhada na mochila, e isso ajudou muito no retorno. Descer toda aquela encosta de botas duplas não seria nada legal ou rápido.
Descemos bem, mas, no meio do caminho, meu estômago reclamou forte e tive que vomitar. Não tinha nada para sair além de água e coca, mas pelo menos passou a pressão que tinha no estômago e que me acompanhou por um bom tempo.
Foram necessárias três horas de descida até chegar à estrada para pegar o carro que ficou nos esperando e retornar para a Vila Sajama.
Foi uma subida bem cansativa. Não existe 6 mil fácil. Se alguém falar para você: “Mas aquela montanha de 6 mil é fácil!”, pode saber que essa pessoa não sabe o que está falando ou é um arrogante babaca. Desconsidere o animal.
Até estávamos preparados para tentar o Sajama, mas precisaríamos de um dia a mais de descanso, e isso seria justamente quando o vento mudava na região. Também não tínhamos tempo hábil para esperar mais dias.
Mas, na real, também estávamos loucos para ir embora.
Fizemos o que nos propusemos a fazer: fechar uma pendência aberta desde 2017 e tirar aquela sensação e experiência ruim que tivemos anos atrás.
Obrigado, Lucas, pelo convite, pela expedição, pela camaradagem e por toda a experiência que passamos juntos.
Te conheço há muitos anos. Já passamos por muita, mas muita coisa juntos, tanto na montanha quanto no dia a dia, e nunca tivemos uma discussão sequer, um atrito. Nossa amizade e lealdade só se fortaleceram em todo esse tempo. E agora, a finalização dessa expedição teve um grande significado para nós dois.
Minha linda jovem esposa, Luiza, obrigado pelo apoio, pela ajuda e, mesmo não estando junto, por ter ficado no Brasil cuidando dos negócios sozinha. Devo estar de bem com Deus por ter me dado uma mulher espetacular para mim.
Obrigado a Deus, aos meus pais, à família Nas Nuvens Montanhismo e a todos os amigos que, de alguma forma, colaboraram.
Escrevi esse relato ainda durante a estadia em La Paz, mas não vejo a hora de voltar aos braços do meu amor e ver os meus netos, de quem estou com saudades!
Boa montanha pra você!

Amanhecer no Acotango.

Dupla animada.
Nesse ponto estávamos recordando que tinha sido nesse local que tínhamos abandonado a tentativa do cume em 2017.

Cume logo ali!

Lucas chegando ao cume.

Natan e Lucas no cume do Acotango 6.052 metros.

Toda a crista por onde subimos.

Visual!

Encosta do Acotango

Finalizando nosso retorno em segurança.

Natan e Lucas.
Expedição Bolívia 2026.
