
Via Dinamarga – Tucum
O final de semana era uma atividade Interclubes. Aqui no Paraná, geralmente mais para o final da temporada, fazemos uma caminhada ou escalada com os associados de cada clube de montanha. CPM (Clube Paranaense de Montanhismo), AMC (Associação Montanhistas de Cristo), NNM (Na Nuvens Montanhismo) e o mais novo clube do Paraná, o CUME (Clube União Marumbinismo e Escalada).
A proposta original era uma subida em conjunto até o Tucum. No cume depois de acampamento montado, a caminhada seria até o Serro Verde e para os escaladores teria um setor inteiro para escolher qual via escalar. Para finalizar o evento, a noite uma confraternização durante a janta aproveitando o belo visual do cume do Tucum.
A proposta era linda e muito divertida, mas infelizmente a previsão do tempo não colaborou muito. Para o sábado não tinha previsão de chuva durante o dia, mas após as 17 horas era para chover e a temperatura despencar. Com um cenário nada favorável, muita gente optou em fazer bate volta, poucos se animaram em dormir no cume.
Com as mochilas carregadas e bem pesadas, eu e a Luiza estávamos bem preparados para passar a noite no cume, com muita comida, além de todo equipamento de escalada que precisávamos, com um agravante, a via que escolhemos para entrar pedia um jogo de peças moveis do .5 ao número 6, e mais algumas peças grandes repetidas. Quem escala em móvel tem ideia de quão pesado estávamos.
Depois de uma caminhada sofrida e cansativa até o cume do Tucum, eu e a Luiza tentamos ser o mais rápido possível para montar acampamento, separar tudo que precisava e caminhar até base de via, queríamos aproveitar ao máximo a luz do dia e tentar chegar na barraca antes da chuva.
A via Dinamarga fica no final do setor, é a última via, a direita da via 10 Anos Depois. Atravessamos todo o setor e longo avistamos alguns amigos na parede. A dupla Capitão (Marcelo) e Juliana estavam começando a segunda enfiada da via 10 Anos Depois, a dupla Cruel (Adriano) e Fran parados na P3 da via Dinamarga.
Cruel que sugeriu de entrar nessa via que parecia divertida e exigente.
A Luiza estava muito animada para guiar. Sugeri eu começar guiando para dar uma olhada nas condições da parede, pois durante a última semana choveu muito na região e eu queria ver se não estava muito molhada.
Primeira enfiada foi tranquila, fácil e seca até o momento. Luiza já assumiu a ponta da segunda enfiada e chegou rápida na P2.
A terceira enfiada inclinou. Algumas canaletas que pareciam ser bons apoios para os pés escorriam um pouco de água. Essa enfiada precisou uma atenção maior.
A quarta enfiada a Luiza puxou tranquila mesmo com os esticões entre as proteções.
Na P4 esperamos um pouco. A Fran estava poucos metros a cima na P5 dando segurança para o Cruel que tentava desvendar as informações do croqui e achar a fenda certa que seria a principal enfiada.
ATENÇÃO.
Para quem for se aventurar nessa via, a partir da P4 o croqui está muito confuso e sem sentido. Vou descrever o que fiz. Até a P4 a via segue a característica do setor, pura aderência.
Da P4 segui reto para o mato, é uma mescla de parede e algumas “ilhas” de mato. Logo acima tem uma chapa e alguns metros a mais tem uma parada que seria a P5.
Nesse ponto o croqui manda fazer um balão para a direita até chegar na base da fenda e fazer uma parada em móvel, esqueça essa informação.
Da P5 olhando para sua parede a frente, a fenda que vamos escalar fica uns 20° graus a direita. Siga em frente varando mato até chegar na base das paredes. O lugar é um platô bem confortável e não precisa montar parada em móvel.
Nesse ponto reuniu as duas duplas tentando entender o que o croqui mostrava e o que era real. A descrição que acabei de dar é a melhor forma de chegar na fenda.
Cruel puxa a última enfiada, sem visual do escalador, só escutamos os gemidos e os xingos.
Após um bom tempo escutamos “Tô na minha, pode liberar”. O Cruel é um escalador forte e muito experiente, se demorou e sofreu desse jeito em uma enfiada de 40 metros, pode ter certeza que estávamos lá em baixo sabendo estávamos fudidos.
Deixei a Fran ganhar um tanto de altura antes de eu entrar. Às 17 horas início a minha guiada parecendo um pinheirinho de Natal com tanto penduricalho que tinha na minha cadeirinha.
A saída até poderia ser feita em oposição se a fenda não estivesse molhada, alguns movimentos em chaminé tesoura para ganhar os primeiros metros do chão e logo eu estava em baixo de uma grande fenda que fazia uma barriga para a esquerda.
A fenda estava muito suja e úmida, ganhei altura quase que em artificial. Logo que subi um pouco pela fenda saindo de baixo dela ganhando pela esquerda, vi a Fran reclamando da touceira que tinha no final da fenda. Desse ponto em diante a Fran achou melhor progredir pela corda, pois estava insano ganhar altura dentro da fenda molhada.
Cruel lá de cima deu o beta, ” … coloca o Camalot 5 bem na base da touceira que fica bomba, quando ganhar um pouco a touceira, o Camalot 6 vai te ajudar a dar uma puxada e ganhar os pés em cima da touceira!”
Eu estava parado em uma peça uns 2 metros a baixo da touceira escutando as orientações. Olhei para a peça que eu estava pendurado e pensei, ” Essa peça ficou meio bosta e a peça 6 que o Cruel falou eu já tinha usado lá em baixo”.
Quando pensei em melhorar a proteção que eu estava a peça sacou da fenda. Durante a queda bati os pés e virei de ponta cabeça batendo as costas na única aresta afiada que tinha na parede. Mesmo de cabeça para baixo tentei avaliar o quanto tinha machucado, pois acabei batendo as costas.
Já meio puto, reestabeleci, limpei o barro da cabeça e voltei para a parede. Coloquei o Camalot 5 bem na base da touceira e fui fazer o lance que parecia ser o crux da via.
Que touceira filha da puta. Eu estava com o peito em cima dela, não tinha muito aonde pegar para tentar ganhar altura, meus pés em baixo estavam no vazio sem conseguir apoio em nenhum lugar, tentei por várias vezes trazer o joelho em cima da touceira, cada movimento que fazia o esforço era gigantesco e logo comecei a ficar bem cansado.
A queda era inevitável, eu parecia um peixe se debatendo sem conseguir sair do lugar, as forças acabaram e eu ia cair, mas antes disso acontecer tentei ainda descobrir aonde estava a corda, será que ela estava por trás da minha perna? Enrolada no meu pé?
Sem visão e sem conseguir sentir onde estava acorda só avisei a Luiza, “vou cair, se prepare!”
Para minha sorte a corda não tinha passado por trás de nada e tive uma queda limpa.
O Cruel lá de cima perguntou se eu não queria uma das pontas da corda da Fran que escalava com corda dupla. Aceitei a ponta da corda, precisava sair dali o mais rápido possível, o tempo já tinha mudado e agora escalava dentro de uma grande nuvem úmida.
Com a corda vindo de cima, cada esforço que eu fazia para cima escalando não era perdido. Mesmo bem cansado passei a “touceira filha da puta” e fui para o “Off width do caralho”, tudo já estava mais molhado com aquela nuvem carregada e chegar na parada já estava ficando cada vez mais complicado.
Terminei a via e rapidamente montei o sistema de segurança para Luiza poder escalar, às 18:10 a Luiza começou a subir. A situação naquele momento estava delicada e não tinha margem para erros.
A parada que eu estava pendurado para dar segurança era bem desconfortável, sem muito apoio e exposto ao vento que piorava a cada momento. Eu olhava o Cruel e a Fran sentados tentando se abrigar do vento e da garoa que começou a cair. A temperatura despencou e escutei lá em baixo, ” escalando!”.
Eu estava preocupado, situações como essa não dá para ter imprevistos ou grandes problemas. Nessas horas que descobrimos quem realmente está preparado para situações complexas e difíceis na montanha.
Luiza veio ganhando altura aos poucos, escutava um gemido de vez enquando e logo ela avisou que tinha chego na touceira. Tentei passar algum beta, mas ali precisava de força bruta e um tanto de mobilidade para trazer o joelho alto.
Escutei um grito e um xingo logo em seguida.
_ Cai Natan, e acabei me afastando da touceira no pendulo! – Gritou a Luiza lá em baixo.
_ Consegue voltar para a parede? Quer jumariar pela corda? – Perguntei.
Eu escutava a voz tremula e com raiva da Luiza e perguntei: _ Tudo bem ai?
_ Vou tentar voltar para a touceira. – Ela gritou.
De repente senti na corda que ela ganhou um pouco mais de altura e logo falou: Consegui passar a touceira!
Respirei um pouco mais aliviado, mas ainda precisávamos finalizar a escalada.
O off width passou com dificuldade, mais venho ganhando altura um pouco mais rápido agora. Além do vento forte e da chuva, agora a escuridão tinha tomado conta. Eu de cima tentava iluminar a parede para Luiza que estava a poucos metros a baixo.
Mesmo com aquela situação caótica e tensa, a Luiza chegou na parada, xingou um pouco, chorou mais um pouco, mas estava feliz de ter terminado aquela escalada, ela sabe o quanto foi difícil aqueles últimos 40 metros.
Cruel e Fran logo pegaram seus equipamentos e se despediram, estavam a tempo expostos ao frio e molhados e ainda tinha todo o retorno até a fazenda.
Tentando ser o mais agilizado possível e tomando todo o cuidado, desequipamos e guardamos tudo nas mochilas, tudo estava escorregadio e ainda tinha uma parede ao nosso lado.
A parte alta do Tucum tem uma vegetação baixa, rasteira. Quando acaba as vias de escalada, encontramos pequenos rastros na vegetação amaçada que leva até a trilha principal.
Quando começamos a caminhada, eu tinha uma noção de direção, pois já escalei várias vezes nesse setor e o senso de direção ajuda bastante nessas horas. Não demorou para conseguir achar a trilha principal que leva para o cume.
Logo acima avistei lanternas, quando me aproximei descobri que era o Cruel. Devido a visibilidade de no máximo 2 metros à frente, o casal estava desorientado. Cruel achava que estava bem mais para baixo do que realmente estava, perguntou pra mim onde estava as cordas fixas da trilha, mas avisei que esse ponto que ele procurava ficava muito mais lá em baixo, ali estávamos muito próximos ao cume.
Seguimos juntos até o acampamento e de lá ele já estava ciente da direção que tinha que seguir, as poucas barracas que tinha no cume estavam sem movimentação. Com aquele tempo cagado, infelizmente não teria confraternização nenhuma.
Com nossa barraca montada, era só largar os equipamentos no avance da barraca e se agasalhar, agora só queríamos ficar secos e quentes antes de forrar a barriga.
Uma janta arregada e agasalhados era o que faltava para finaliza um dia bem intenso que nem imaginávamos que seria tão pesado assim.
Agradeço a parceria do amigo Cruel e Fran que esperaram até o último momento com a certeza que todos estavam em segurança, fora a ponta da corda que ajudou muito rsrsrs.
Luiza cada dia que passa mostra que é parceira pra carallho e não abre o bico com qualquer perrengue que apareça, a força e a experiência que ganha a cada final de semana não tenha dúvidas que tem um longo caminho como montanhista e escaladora.
Tucum, que já subi e escalei muitas vezes, lembra que montanhismo não é passeio e precisamos estar preparados para as diversidades que a montanha coloca em nosso caminho muitas vezes, mesmo em lugares que já conhecemos e parecem tranquilos quando o céu está azul. Todos são legais e “casca grossa” quando o sol está a pino e tudo corre bem, só descobrimos a pessoa na outra ponta da corda quando o céu escurece e a situação azeda.
VÍDEO YOUTUBE