O Frade e a Freira – Espírito Santo

O Frade e a Freira – Espírito Santo

1 de janeiro de 2026 0 Por Natan

Alguns anos atrás, a caminho da Bahia para algumas escaladas, passando pela BR-101, próximo à cidade de Cachoeiro de Itapemirim, avistei de longe duas montanhas impossíveis de passar despercebidas: o Frade e a Freira. Duas formações rochosas, uma de frente para a outra, que transformaram aquele conjunto em um verdadeiro ícone do Espírito Santo.

Nos anos seguintes, voltei a passar por ali diversas vezes, mas sempre de passagem, com o cronograma apertado, deixando a subida dessas montanhas para um futuro que insistia em não chegar.

O Frade e a Freira têm o aspecto que remete aos nomes. Diz a lenda que ambos se apaixonaram durante a catequização dos indígenas no Espírito Santo. O amor era proibido pelos votos de castidade, Deus teria concedido o perdão, mas os eternizou na rocha — ou, segundo outra versão, foram transformados em pedra como castigo. Permaneceram juntos, frente a frente, em eterna oração. Assim conta a lenda.

Este ano, finalmente, coloquei o Frade na lista das montanhas que queria fazer. Só dependia de a previsão do tempo coincidir com o dia em que eu estaria passando pela região.
Eu e a Luiza tínhamos apenas meio período disponível. Estávamos em viagem de Vitória para Petrópolis, e a escalada aconteceria nessa passada.

Por volta das 10h da manhã, saímos da BR-101 em direção à base da montanha. São cerca de 5 km de subida por uma estradinha relativamente boa, até chegar ao início da trilha, no final da estrada.
No Google Maps, é só colocar Pedra do Frade e da Freira. As placas de identificação e orientação deixam bem claro onde começar — não tem erro.

A caminhada não dá nem tempo de aquecer: em cerca de sete minutos já se chega ao mirante. A partir dali, é óbvia e nítida toda a crista que leva ao cume do Frade. Uma longa aderência pelas costas da montanha não deixa dúvidas sobre o caminho a seguir.

Na placa, a via estava identificada como 2º IV A0 – 200 metros. Para escaladores, a descrição chega a parecer um passeio. Ainda assim, não se arrisque a subir sem equipamento adequado: a descida exige rapel nos trechos mais íngremes.

Estávamos escalando com cordas duplas, mas uma corda simples de 60 metros é suficiente para toda a via. As paradas duplas, a cada 30 metros, viabilizam perfeitamente o uso de apenas uma corda.

Saímos do carro às 10h25. O sol não estava de brincadeira. Escalamos o mais rápido possível: o lugar não oferece sombra e o calor começava a ficar quase insuportável.

Encontramos quatro pessoas descendo do cume. Posso estar enganado, mas pareciam dois guias com dois clientes. O sistema de “rapel” utilizado pelos “profissionais” era algo que deixaria qualquer guia de escalada inconformado.

Era tanta coisa errada que eu nem sabia como abordar aquela dupla de idiotas e irresponsáveis. Ali não era hora nem momento. O problema é que, quando alguém se arrebenta ou morre, a culpa cai no montanhismo — “esporte perigoso”, “atividade irresponsável” — e ninguém olha para o real problema.

Estávamos muito próximos do cume e queríamos finalizar logo para sair do sol e voltar à estrada. Na saída de uma parada dupla, um deles me perguntou se eu tinha uma malha rápida para subir os grampos.
Respondi que não tinha. Ele sorriu e não falou mais nada.

Pouco mais à frente, quando avistei os degraus que levam ao cume — um grande bloco de pedra — entendi o motivo da pergunta. Antes dos degraus, havia três proteções que lembravam chapeletas, mas com furos tão pequenos que só passava uma malha rápida pequena.

Peguei meu menor mosquetão e consegui passar na primeira. Artificializando, cheguei à segunda, cujo furo era ainda menor — nenhum mosquetão entrava.
Eu estava indignado. Mas dali eu não voltaria.

Peguei uma das cordas e fiz vários nós na ponta para dar peso. Comecei a lançar aquele bolo de corda na direção dos degraus, tentando fazer com que a parte pesada passasse pelo grampo, permitindo que eu me puxasse até o primeiro degrau.

Sol forte, calor absurdo, e eu ali brincando de boiadeiro, tentando laçar degrau na parede.
Enquanto isso, a Luiza tentava espantar os lagartinhos que rodeavam ela.

Não sei quanto tempo fiquei ali. Só sei que já estava ensopado de suor quando finalmente consegui laçar o grampo e subir até o primeiro degrau.

Às 12h25 chegamos ao cume do Frade. Um visual muito bonito e diferente. O cume da Freira logo ali, mas ficou para uma próxima oportunidade.
Primeira montanha do ano, cume novo para mim e para a Luiza, sob um sol castigante.

A descida foi rápida. Agilizamos tudo para sair do sol e buscar água — os três litros que levamos já tinham acabado fazia tempo.

Apesar da surpresa no final da escalada, com aquelas proteções que nos fizeram perder bastante tempo, vale muito a pena conhecer essa montanha.
Se você levar malhas rápidas, vai ser rápido e fácil chegar ao cume.
Aproveite!

O Frade e a Freira

Início da caminhada, tudo bem sinalizado.

Mirante.
A direita o Frade, e a Freira a esquerda.

Inicio da escalada do Frade!

O crux da via, um IV grau bem protegido. Iniciantes na escalada com conhecimento técnico tem toda a condição de fazer essa montanha.

Três chapas caseiras antes de chegar nos degraus. Uma malha rápida para entrar no pequeno buraco para artificializar até os degraus.

Ao fundo, a montanha mais pontuda é o Itabira, a primeira escalada técnica realizada no estado do Espírito Santo.

Luiza no cume.
A direita ao fundo o cume do Itabira.

O cume da Freira na frente!
A Freira foi a segunda via aberta no estado.

Natan e Luiza no cume do Frade.